
| Religiosa e Doutora da Igreja |
Ao longo dos séculos, foram proclamadas santas mais mulheres do que homens. Embora com muita dificuldade, a Igreja teve a humildade de reconhecer que algumas mulheres prestavam valiosos serviços à Igreja, mais que os homens. Ao conferir o título de “Doutora da Igreja” a três mulheres, e outras que ainda virão.
A Igreja expressa o reconhecimento público da universalidade, da influência doutrinal que elas exerceram na Teologia e na vida da Igreja.
Catarina de Sena, Teresa de Ávila e Teresinha de Lisieux são três faróis que, do seu lugar humano e eclesial, ensinam uma doutrina sublime e cheia da sabedoria que vem do alto. Nenhuma delas freqüentou universidade Teológica ou teve como mestres teólogos famosos e ilustres. Não só passaram suas vidas mergulhadas no estudo entre os livros. Não ensinaram em nenhuma faculdade e nem tampouco exerceram o mistério da pregação. Mulheres simples, apaixonadas por Deus e pela Igreja, que se deixaram conduzir pelo Espírito Santo.
VIDA
Catarina pertenceu a uma família numerosa de 25 irmãos, ela era a vigésima quarta. Nasceu, provavelmente, aos 25 de março de 1347, na maravilhosa cidade de Sena, na Toscana, bairro chamado Fontebranda. Pertencente a uma família de classe média – alta. O pai, Tiago Benincasa, é bem-sucedido comerciante de peles, e a mãe, Lapa, é a filha do poeta Nuccio Piagenti. Catarina é a caçula, em lugar de sua irmã Joana, que morreu nos primeiros anos de vida.
Na família Benincasa não faltava o necessário. Tendo uma profunda consciência religiosa e um forte sentido político de defesa à cidade.
Embora os filhos fossem numerosos, o casal recebeu em sua casa um primo órfão, Tomás della Fonte que, mais tarde, tornando-se Dominicano, teve grande influência na vida de Catarina e sendo o seu primeiro confessor e diretor espiritual.
Catarina era uma pérola de menina. Caráter dócil, sempre pronta e disponível ao ponto de ser apelidada de “Eufrosina”, que quer dizer “amável”.
Desde cedo revelou sinais de vocação para a vida consagrada. Os primeiros biógrafos, na chamada “Legenda Maior”, relatam – nos sua infância totalmente marcada pela forte presença de Deus.
Catarina, com apenas seis anos, quando voltava para casa, no bairro Vale Piatta, em companhia de seu irmão Estevão, aparece-lhe Jesus Cristo no alto da Igreja de São Domingos, vestido com roupas sacerdotais, rodeado por vários personagens, entre os quais é possível reconhecer São Pedro, São Paulo, e São João.
Aos doze anos iniciam-se os conflitos familiares. A mãe, dona Lapa, preocupada com o futuro de Catarina, pensa em arruma-lhe um bom matrimônio. Não compreende as atitudes espirituais da filha. Catarina , num gesto corajoso, revelando autonomia, corta de cabelos, sempre a Deus numa ordem religiosa. Desde então, Catarina inicia uma vida austera, passando horas e horas, num pequeno quarto, transformado em sela conventual, no seio da própria família.
Os familiares olham este gesto com suspeita. Tentam arranca-la de sua solidão cofiando-lhe o trabalho mais pesado e duro. Perturbam a sua oração e silencio. E, especialmente, proíbem-lhe de fazer penitências que sejam prejudiciais à saúde.
Catarina não se revolta. Aceita tudo com plena docilidade, criando uma cela “interior”, onde ninguém a pode perturbar nos seus íntimos colóquios com Deus.
“Fazei uma cela na mente, de onde nunca podereis sair”, escreverá mais tarde aos meus discípulos.
Será neste período, depois de visão em São Domingos, que Catarina decide ser Dominicana.
A docilidade de Catarina vence a dureza dos pais e dos irmãos. Especialmente, por decisão do pai, a situação se acalma e Catarina poderá dedicar-se livremente à oração.
Em 1363, Catarina faz o pedido para entrar na confraria das “Manteladas”, assim chamadas por causa de um longo manto preto que colocavam por cima do habito branco, Dominicano. Embora tenha apenas dezesseis anos, após varias tentativas e resistências, é admitida na comunidade das “Manteladas”.
No ambiente religioso, favorável aos seus desejos de santidade, Catarina caminha com passos de gigante para o caminho da perfeição. Pode dedicar-se inteiramente à oração e a penitência. A oração não a impede de visitar doentes leprosos. Encontramo-la visitando os doentes do leprosário São Lásaro e totalmente dedicada aos trabalhos que lhes são confiados.
Com seu caráter corajoso e decidido, consegue dominar os desejos mundanos, e Deus a recompensa com o dom da contemplação: visões, êxtases, unidos a uma vida de penitência e dedicação ao serviço dos mais pobres e necessitados.
Lentamente, o nome de Catarina corre de boca em boca pela cidade de Sena e nos povoados circunvizinhos. O povo começa a procurá-la para perdi-lhe conselho e orações.
Apesar de ser admirada por muitos, surge, de outro lado, a inveja e o ciúme que vão provocar calúnias e dificuldades à mística “Senense”.
O clero os religiosos olham o fenômeno “Catarina” com um certo desprezo. Não é raro encontrar isso entre os próprios dominicanos que colocam à força para fora da Igreja, deixando-a no chão, meio morta, ainda sob efeito dos êxtases.
As “Manteladas” sentem-se perturbadas, quase agredidas pela santidade de Catarina. Quase se arrependem de tê-la recebido entre elas.
Os biógrafos dedicam bastante espaço as calúnias e incompreensões que chovem sobre a vida de “Catarina” como uma verdadeira tempestade. Catarina mergulhada no seu doce Cristo, não se abala e nem apavora. Tudo suporta por amor ao Senhor. É na oração e no exercício da caridade que ela encontra a sua força. Jesus lhe aparece junto com a Virgem Maria e outros santos numa noite, no fim do carnaval de 1937, entregando-lhe o anel do matrimônio espiritual.
Sofrimentos familiares, como a morte do pai e uma grave doença da mãe, aumentam a cruz de Catarina que tudo oferece ao Senhor pela salvação dos pecadores.
A Igreja passa por um período difícil, Os cismas dividem-na e repartem o corpo místico de Cristo com os anti-papas, que atraem multidões de fieis enganados por motivos políticos e religiosos. Rubano V, 1362-1370, transfere a sede do papado de Roma para Avinhão. Catarina recebe de Jesus uma missão quase impossível: lutar para que a sede do Papado volte para Roma.
Sente-se chamada ao apostolado. Ela, que escolhera permanecer escondida na oração e no silencio, será de agora em diante a peregrina e nômade de Deus pelas cidades da Itália, convidando todos a renovarem sua fé em Deus e sua adesão à Igreja e ao Papa, “doce Cristo na terra”.
A sua pequena casa de Fontebranda transforma-se num cenáculo, onde amigos e simpatizantes se reúnem para rezar e refletir. São pessoas de famílias nobres e importantes de Sena, Florença, Pisa, Arezzo...
Catarina, jovem, analfabeta, mesmo assim é conselheira e orientadora de professores e teólogos famosos. Deus lhe serve dos pequenos para tocar os corações dos sábios e doutos segundo mundo.
As cartas que ela dita aos seus secretários deixam o “silencio” e percorrem as várias cidades da Itália e da Europa. As críticas aumentam. A inveja e o ciúme se encarregam de atacar Catarina de Sena e seus discípulos. A Ordem Dominicana sente-se ameaçada pela presença indiscreta e cada vez mais projetada de Catarina. O capítulo Geral dos Dominicanos, reunindo em Florença, chama-a para que explique sua teologia e doutrina diante dos teólogos. No dia 21 de maio de 1374, Catarina é sabatinada pelos capitulares. Suas respostas os satisfazem. Não há nada de herético.
O Capítulo encarrega Frei Raimundo de Cápua pára acompanhar o desenvolvimento teológico e espiritual de Catarina e ser seu diretor espiritual.
Em 1374, a peste causa mortes e desespero em Sena. Catarina, voltando de Florença, dedica-se aos doentes. Neste mesmo ano, Catarina entra em contato com o novo Papa, Gregório XI, empenhando em preparar uma cruzada contra os turcos. Catarina oferece sua ajuda, estimulando cristãos aderirem a essa iniciativa. Para que seu trabalho surta mais efeito, transfere-se para Pisa, onde o porto reúne mais pessoas interessadas no comércio e nas viagens.
Em pisa no ano de 1375, estando em oração, na Igreja de Santa Catarina, à beira do Rio Arno, recebe o sinal mais intimo do seu amor para com Cristo e do amor de Cristo para com ela: os estigmas. A sua configuração com Cristo de agora em diante será total.
Hoje é importante conhecermos o desfecho político do tempo de Santa Catarina a fim de entendermos sua vida e situação da Igreja.
Florença esta descontente com o Papa, por isso faz uma aliança com todos seus inimigos. Catarina tenta, com todos os esforços, que a rebelião seja circunscrita, mas os florentinos, chamados “o grupo dos oito santos” promovem a guerra. O Papa lança a excomunhão contra todos. Diante desta situação, os florentinos recorrem à Catarina de Sena, que é enviada como embaixatriz para Avinhão, onde se encontra o Papa Gregório XI.
Catarina é recebida pelo Papa e permanece sua hóspede por três meses. Consegue que seja retirada a excomunhão, mas, mudanças no governo de Florença, não levam a sério os resultados de Catarina.
Catarina aproveita sua estada em Avinhão para tentar convencer o Papa a voltar para Roma. Depois muita indecisão, o Papa retorna o caminho de volta à Roma. Catarina o acompanha e o encoraja para que não volte atrás nesta decisão. Estamos no ano de 1376. Chegando a Sena, Catarina é recebida com muitas horas, mas permanece na mais profunda humildade. Continua sua luta a fim de ver Florença em paz definitiva com o Papa. Consegue realizar este seu desejo em 1378, quando Urbano VI é eleito Papa.
Voltando para Sena, Catarina dedica-se totalmente ao seu íntimo diálogo com Deus. Mergulhada no mistério do Senhor ditará aos seus secretários o famoso “Diálogo da Divina Providência”.
O Papa Urbano VI tinha um caráter bem difícil e dominador. O mal-estar crescia sempre mais na Igreja e na Cúria Romana. Por outro lado, os cardeais franceses estavam descontentes porque, com eleição de um Papa italiano, tinham perdido o controle do papado, isto, após uma sucessão de sete Papa franceses.
Isso teve um desfecho duro e difícil. Os cardeais franceses se rebelaram abertamente contra o Papa Urbano VI e elegeram um novo Papa na pessoa de Roberto de Genebra, o qual assumiu com o nome de Clemente VII. Isso foi um duro golpe para Catarina volta-se com seus discípulos para o Papa Urbano VI e à Igreja, dedicando-lhe toda sua vida e seu serviço.
Acontecimento inédito para aquele tempo foi o convite que o Papa Urbano VI fez a Catarina. Chamou-a no consistório para falar aos cardeais que haviam permanecido fieis a Igreja. As suas palavras foram de uma força extraordinária.
É ela que, com autorização do Papa, convida para virem a Roma os príncipes, chefes de Estado e os cristãos para que formem um “muro de proteção” ao redor do vigário de Jesus Cristo.
Catarina enviou cartas aos reis convidando-os a combaterem os franceses e os expulsar de Roma. Com sua palavra e presença, consegue acalmar os ânimos dos romanos, revoltados contra o Papa. Ao mesmo tempo, Catarina convida o Papa a modificar seu caráter e mitigar as sua iras.
Catarina declara seus últimos meses de vida à sua família religiosa e aos seus discípulos, aos quais exorta a serem fiéis à Igreja e voltarem a viver uma vida de maior austeridade e oração.
Ela prediz que Frei Raimundo de Cápua será o novo geral da Ordem Dominicana, o que aconteceu poucos meses depois de sua morte.
O número de discípulos e discípulas de Catarina foi aumentando e sua doutrina difundiu-se por toda parte.
Cansada de tanto trabalho, doente, rodeada pelos seus amigos e discípulos, morre aos 29 de abril de 1380, exortando todos a viverem com fidelidade o amor para com a Igreja, para com Deus e entre si: “Nunca que vos esqueçais, meus filhos dulcíssimos, deixando o corpo, na verdade, eu dei toda a minha vida para a Igreja e pela Igreja, o que me dá grande alegria”.
A vida de Catarina de Sena nos maravilha por sua intensa atividade apostólica, pela aceitação que teve nos ambientes eclesiásticos do seu tempo. A sua palavra era ouvida e procurada. Ela tinha a capacidade de reavivar amizades e restabelecer a paz. Uma jovem mulher, sem escolaridade, que se impõe pela força do seu carisma. Analfabeta nas letras humanas e rica da sabedoria de Deus.
Quando a noticia da morte de Catarina se espalhou, o povo exclamou unido: “morreu a santa!” Houve um corre-corre no convento dos Dominicanos. Por precaução, fecharam os portões da Igreja de São Domingos, em Minerva], onde o corpo estava exposto. O Papa Urbano VI, como sinal de gratidão para com a mulher santa, que havia lutado em favor do pontificado, quis que fosse celebrado um funeral solene.
Depois do enterro, iniciou-se uma constante peregrinação ao tumulo de Catarina.
O Papa Pio IX proclamou padroeira das mulheres da Ação Católica.
Em 1939, na véspera da Itália entrar em guerra, foi pedido ao Papa Pio XII que proclamasse Catarina Co-padroeira da Itália, junto com São Francisco de Assis. Em 1970, o Papa Paulo VI conferiu-lhe o titulo de Doutora da Igreja.
Embora os seus escritos não sejam muito conhecidos pelo povo, Catarina de Sena é, sem duvida, uma das mulheres mais importantes da Igreja. Assumiu com coragem a defesa dos verdadeiros valores evangélicos e humanos.
A sua presença e suas palavras foram decisivas na resolução de situações dramáticas para a Igreja, ameaçada de divisão. A sua palavra, doce e persuasiva; o seu exemplo de integridade e de amor a Cristo; a sua atuação livre de qualquer interesse fizeram-na mensageira estimada, seguida e amada por todos.
Catarina foi uma presença de unidade para Igreja.
VISÃO SOBRE O PAPA
“Na terra, quem possui a chave do sangue é o Cristo-na-terra. Certa vez, eu te manifestei essa verdade numa visão, para indicar o grande respeito que os leigos devem ter pelos ministros, bons ou maus que eles sejam, e quanto me desagrada que alguém os ofenda. Pus diante de ti a jerarquia da Igreja sob a figura de uma despensa contendo o sangue de meu filho. No sangue estava a virtude de todos os sacramentos e a vida dos fieis.
Á porta daquela despensa, via o Cristo-na-terra, encarregado de distribuir o sangue e fazer-se ajudar por outros no serviço de toda a santa Igreja.
Quem lhe escolhia e ungia, logo se tornava ministro. Dele procedia toda a ordem clerical; ele dava a cada um sua função no ministério do glorioso sangue. E como dispunha dos seus auxiliares, possuía a força de corrigi-los nos seus defeitos.
ESCRITOS
Parece quase um absurdo falar de escritos de uma mulher que mal sabia escrever o nome. No entanto, a riqueza da sua sabedoria não se perdeu. Tudo foi conservado pelos seus secretários que, fielmente, colocavam no papel tudo o que saia de sua boca.
A tradição confirmada pela critica fez chegar até nós os seguintes escritos de Catarina de Sena: As Cartas, o Diálogo da Divina Providência e as Orações.
Vamos examiná-los um pouco melhor a fim de podermos compreender a sua doutrina.
AS CARTAS
Catarina escreveu durante sua vida 382 cartas. A critica as considera autênticas, embora se conserve somente oito cartas originais. As outras foram recolhidas e transcritas pelos seus discípulos e secretários.
Dissemos que Catarina era quase analfabeta, portanto não escrevia pessoalmente as cartas, mas ditava.
A grafologia nos apresenta sete secretários diferentes, embora os secretários fixos fossem três. Há noticias de que outros lhe prestavam este serviço.
Catarina tinha uma memória prodigiosa. Era capaz de ditar ao mesmo tempo varias cartas e todas resultavam perfeitas em sua lógica e conteúdo. Muitas vezes ditava cartas durante os êxtases, sem pausa e sem pontuação. As palavras fluíam do seu coração com um de um manancial de água viva. Catarina somente escrevia de seu próprio punho as saudações e algum recado muito particular reservado.
A conservação do seu epistolário devemo-lo à dedicação dos seus discípulos que se preocupavam em fazer varias copias da mesma carta.
A primeira edição das cartas de Santa Catarina data do ano de 1492, logo após a descoberta de imprensa. Essa primeira edição consta apenas 31 cartas.
São muitos os elementos que ajudam a reconhecer as cartas de Sana Catarina de Sena: a abertura da carta, que é sempre feita em nome de Jesus e de Maria; a expressão “eu Catarina, serva escrava dos servos de Jesus Cristo, escrevo a vocês no seu precioso sangue”.
As cartas possuem um caráter familiar e são cheias de conselhos práticos e úteis a todos aqueles que buscam, verdadeiramente, a perfeição. Somos convidados, por Catarina, a seguir Jesus Crucificado e a beber do seu precioso sangue.
As cartas de Catarina são consideradas uma obra teológica de espiritualidade e uma obra literária.
O DIÁLOGO
“O Diálogo” é um livro muito querido ao coração da Catarina. Recomenda-o, vivamente, aos seus discípulos.
Podemos considerá-lo o seu testamento e a sua mais bela síntese teológica do amor de Deus com a humanidade.
Santa Catarina chama-o simplesmente: “O livro”.
Segundo a “Legenda Maior”, “O Diálogo” foi composto entre o mês de julho de 1377 e maio de 1378, portanto em menos de um ano. Alguns autores dizem que Catarina teria escrito este livro em cinco dias, mas isso não é comprovado. Boa parte de “Diálogo” foi ditado durante os êxtases de Catarina. Ela mesma havia dito a seus secretários que, logo que entrasse em êxtase, se preparassem para escrever o que ela o que ela iria dizendo.
Chama-se o “Diálogo” porque não é senão um longo e apaixonado diálogo entre Catarina e Deus. Ela própria relata o que ia acontecendo no seu íntimo durante os êxtases. “O Diálogo” foi traduzido para o latim, que era naquele tempo, a língua dos doutos. Foi o livro de maior sucesso. Já em 1472, encontramo-lo impresso e traduzido em varias línguas.
“O Dialogo”, é o caminho que a alma deve percorrer para chegar à intimidade com Deus-Trindade. Catarina fala com o profundo amor da encarnação, do sangue redentor do Cristo, da conversão da humanidade e do clero. E o livro mais importante para o conhecimento da mística e da espiritualidade de Santa Catarina. É o fruto da sua intimidade com Deus, na oração. Ela nos oferece, de maneira pedagógica, a sua experiência espiritual e sobrenatural da intimidade com Deus.
“O Diálogo” é considerado um clássico da espiritualidade.
DOUTRINA
Os escritos de Catarina de Sena são fontes necessária para conhecer o seu pensamento teológico, espiritual e político. Há nela uma mística política que coloca em realce o seu extraordinário amor pela Igreja, cujos fieis devem permanecer unidos ao Papa e todos os reis e príncipes da terra devem defender e estar ao lado do Vigário de Jesus Cristo.
A obediência e fidelidade ao Papa são características do verdadeiro seguidor de Jesus.
O Papa Pio II, na bula de canonização de Catarina, reconhece que a ciência e sabedoria que ela possuía era dom de Deus, era ciência infusa. Isso, porem, não elimina as influencias do seu tempo. Catarina pertencia à Ordem Dominicana, famosa pelo cultivo da Teologia, isto foi, sem duvida, um fato determinante para a doutrina de Catarina. O contato com vários teólogos da Ordem lhe permitiu receber orientações importantes, e ela soube transmitir nos seus escritos e na sua atuação política com os grandes de seu tempo.
Catarina é a perfeita síntese entre a ação e contemplação, toda dedicada a Deus na oração e toda dedicada ao serviço da Igreja e ao apostolado. Essa dimensão faz de Catarina um modelo de vida para os nossos dias, tão cheios de atividades, que parecem sufocar o espírito contemplativo. Catarina não freqüentou somente ambientes dominicanos, mas teve contato com outras correntes como o franciscanismo, e relacionou-se com outros místicos do seu tempo, como João Colombini.
É interessante colocar em evidencia como Catarina, embora, provavelmente, sem ter lido a Bíblia, possuía um razoável conhecimento bíblico, fruto da atenção que ela prestava nas celebrações litúrgicas ou nas pregações dos sacerdotes. No “O Diálogo” e nas cartas, soma-se 680 citações do Novo Testamento e 97 do Antigo, e ainda a presença discreta e indireta de grandes santos como Agostinho, Bernardo, Tomás.
A origem da vida social, moral e política têm sua origem no mistério Trinitário. Somos criados à imagem da Santíssima Trindade e a ela voltamos. O pecado nos afasta de Deus e nos lança um turbilhão da vida, mas Deus, na sua providencia, nunca nos abandona e vem nos buscar no seu Filho Jesus que, através da Encarnação, faz sua morada entre nos e assume a nossa natureza humana. O seio de Maria, mediante o mistério da Encarnação, torna-se um templo da Santíssima Trindade, o campo onde é semeado o Verbo. Para Catarina tudo parte da Trindade e tudo volta para a Trindade.
Jesus encarnando-se se faz “poente” entre nós e o Pai; como cordeiro manso é imolado e com o sangue nos dá uma vida nova. A de Catarina ao sangue precioso de Jesus Cristo está presente em muitas paginas dos seus escritos. A força do sangue de Jesus chega até nós através dos sacramentos, no jardim que é a Igreja, sempre fecundado por este sangue divino.
Uma imagem belíssima que Catarina uma para dizer o que a Igreja é a da “adega”, onde é conservado o sangue precioso de Cristo e o Papa é o responsável por esta adega. Os sacerdotes, embora indignos e pecadores, são os dispensadores deste sangue aos peregrinos e viandantes. Desta visão nasce o grande respeito e amor que Catarina tem para com todos os sacerdotes. A sua pregação, para que os ministros do Senhor voltem a ter uma vida digna e santa, encontra sua razão em Cristo Jesus, que é o único pontífice entre o céu e a terra.
Percorrendo o caminho da humanidade, o homem, através da oração, pode vencer o seu pecado. Através do amor, o cristão transforma-se em outro Cristo e torna-se necessariamente apostólico, porque não podendo ser útil a Deus torna-se útil aos irmãos. Ninguém é auto-suficiente. Precisamos dos outros para nós realizar e sermos “pessoas” livres e autônomas. Para Catarina de Sena, o respeito pela pessoa é fundamental e nunca pode ser esquecido ou destruído por interesses particulares. O político deve preocupar-se com os seu país, mas não pode perder de vista os valores universais e o bem da humanidade, como um todo. Catarina vê toda ação na visão evangelizadora e no encontro com Cristo, centro da historia da humanidade.
ORAÇÕES
Como sugere o nome, este livro consta de autenticas orações ditadas aos seus secretários durante os êxtases e em outra varias circunstancias.
Frei Bartolomeu Domini diz: “Muitas vezes, Catarina, estando em êxtase, falando com Deus, pronunciava orações profundas e devotas. Muitas delas, eu mesmo transcrevi, palavra por palavra”.
Conservam-se vinte e seis orações consideradas autenticas. Nestas orações, é o coração de Catarina que vibra de amor pela Igreja, e pelo Papa.
São suas estas palavras: “Se for tua vontade, que eu derrame todo meu sangue, ate os miolos, neste jardim que é a Santa Igreja. Se for tua vontade, que os meus ossos e miolos sejam triturados pelo teu vigário na Terra”.
As orações de Santa Catarina constituem um exemplo de espontaneidade, simplicidade e diálogo orante. Pena que não se encontram publicadas tais orações.
Fonte: http://www.tocadeassis.org.br/index.php?lingua=1&pagina=santa_catarina

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